sábado, 17 de março de 2012

O VARREDOR

Mercêdes Pordeus
Recife/Brasil


Varrendo a rua não importando se de noite ou dia.
O varredor com dedicação, o seu trabalho desempenha.
Pessoas passam indiferentes sem desejar bom dia
E não o agradecem pela a nobreza do seu empenho.


Ele varre toda a sujeira, os borralhos a vida inteira.
Não se importa se feitos por crianças ou adultos
Está ali, e permanece no seu silêncio absoluto.
Uma criança rompe do seu silêncio as fronteiras.


Apenas uma criança... Uma criança de rua!
Dedica um pouco do seu tempo e continua...
Observa o homem solitário no seu mundo imaginário
Criança que vive a indiferença do mesmo mundo arbitrário.


Pergunta ela: Por que você está tão triste?
O homem fica calado e a criança insiste.
- Você não vê, nem pareço ser humano!
Todos passam felizes, mas me ignorando.


Fico aqui varrendo, varrendo... incansavelmente
As pessoas passam e fingem que estou ausente
Assim como fazem com você, não percebe?
Nem se quer um pouco de carinho do irmão recebe.


E assim aquele homem continua a sua varredura
Varra amigo, só lhe peço, não perca a sua postura.
Nunca varra desse seu limpo e nobre coração
A esperança de que um dia aprendam uma lição.


De que todos têm uma alma e um coração
Que perante Deus nós somos todos irmãos
E que Ele entre nós não fez e nem fará acepção
Recebe-nos com a mesma afeição e sem distinção.


Em 28/05/2008.
Inspirado na pintura de Roberto Bérgamo





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RETRATO DE UM FIM DE TARDE


Mercêdes Pordeus
Recife/Brasil

Eu senti a necessidade de me encontrar com a solidão
Não uma solidão que me conduzisse a tristeza, isso não.
Mas, uma forma de meditar como conduzia minha vida.
Eu estava introspectiva, fixei meu olhar sem pretensões.
Divaguei num ponto, no qual apenas a natureza me guiava.

Era como se me deixasse retratar numa obra de arte
Onde só o artista me fitava docilmente e pincelava
Transcendendo a linha daquela linda paisagem física
Que só alguém com muita sensibilidade transformava
Alguém que traduz com a singeleza das mãos... a vida.

Era o crepúsculo, o sol já tão pertinho do horizonte!
Inspirava o pintor como a relação entre poeta e poesia
Era uma linda mistura do azul do dia e o escuro da noite
Os matizes formavam lindos nuances num belo contraste
Eram cores suaves que se misturavam com a paisagem.

O verde, o azul, o amarelo, as montanhas pareciam magias.
Transportei-me como uma pluma no ar, com doce maestria.
Acordei... E não queria acordar! Mas enfim daquele momento...
Sobrou algo que nunca pude esquecer, vi naquela tela o talento.
De quem tem nas mãos o dom de fazer a linda poesia colorida.

Transformando em obra de arte meu desejo de fim de tarde.

Em 23/10/2007
(especial para as Letras da Pintura, quadro "Fim de Tarde no JD de
Maguetas" de Washington Maguetas)


O PEQUENO CAÇADOR DO AMOR

 
 
 Mercêdes Pordeus
Recife/Brasil

Seu olhar triste traduzia o vivido sofrimento
Carregava sobre seus ombros a responsabilidade
A única coisa que conhecia como sua realidade
E continuava assim a conviver com o seu tormento.

Sendo tão frágil e indefeso aquele pequenino
Em busca do alimento para aqueles a quem ama
O pequeno caçador vai surgindo pela estrada
Vencendo as dificuldades impróprias de um menino.

Uma criança que só precisava estudar e ser criança
Sim! Direito que de forma cruel lhe fora negado
Pela dura obrigação que pela vida lhe fora imposta
Fazendo com que se dissipasse a sua esperança.

Surgia da sua paisagem pisando aquele chão
Sem nos pezinhos finos ter nenhuma proteção
Era aquela paisagem, a única que ela conhecera.
Talvez por isso tenha se habituado a sua condição.

Triste, mas não me parecia criança revoltada!
Seu semblante era resultado de sua conquista
Satisfeita sabia que veria a família alimentada
Nesse intento se sentia uma criança realizada.

Talvez tenha sido com esse nobre sentimento
Que alguém ao pincelar uma tela em branco
Refletiu o colorido da pureza da inocência
Desprezando toda mágoa da sua vivência.

A artista que retratou com tinta e pincel
Uma cena que assim poderia ser descrita
Criança triste, mas sem a maldade do rancor.
Que só se importava com sentimento do amor.

Seriam essas as letras da pintura?

Em 20/11/2007
(dedicado a " The Little Hunter" de Analua Zoé, no cenário As Letras da Pintura Nº. 2 do Grupo Ecos da Poesia)